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Com 12 filmes, mostra faz retrospectiva do cineasta chileno Miguel Littín

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Miguel Littín tem o privilégio de ser um cineasta que virou personagem de Gabriel García Márquez. Ele é o narrador e protagonista do livro-reportagem A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile (Editora Record), fruto de 16 horas de conversa entre o diretor chileno e o escritor colombiano. Refere-se a uma proeza de Littín, o fato de, exilado e incluído numa lista de inimigos juramentados do regime, ter cruzado escondido a fronteira, desafiado a ditadura e rodado o documentário Actas de Chile em 1986, sob as barbas do ditador Augusto Pinochet. O filme é uma das atrações – talvez a principal – da mostra Cinema Latino-Americano de Miguel Littín, composta de 12 longas-metragens que poderão ser vistos gratuitamente na plataforma SPCine Play (www.spcineplay.com.br).

Há muito a descobrir nessa retrospectiva de um dos principais cineastas latino-americanos, hoje com 78 anos. Em primeiro lugar, os filmes, claro, que são o principal. Mas a mostra programou também um debate mediado pelo cineasta Francisco Cesar Filho (diretor do Festival Latino-americano de São Paulo), o especialista em Littín Alexsandro de Sousa e Silva e a curadora da mostra Lívia Fusco, que vai ocorrer hoje, 1º de abril às 17h. Sábado, 3, às 16h, Alexsandro ministrará uma masterclass ao vivo. Os dois eventos podem ser vistos no canal do YouTube da Mostra.

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A trajetória cinematográfica de Littín, o espectador logo perceberá, é marcada pela trágica história do nosso continente, e, em particular, pela do país natal do cineasta.

Os dois primeiros filmes programados – O Chacal de Nahueltoro (1950) e Companheiro Presidente (1971) são também os da primeira fase do diretor. Em particular Chacal, considerado por muitos sua obra-prima, junta uma história de impacto (baseada em fatos reais) à crítica social e à ousadia estética.

Chacal era como a imprensa sensacionalista chamava o autor de um crime pavoroso na localidade de Nahueltoro. Nelson Villagra interpreta o personagem paupérrimo e com deficiência mental, que vaga pelos campos chilenos e é acolhido por uma viúva e seus cinco filhos. Após a tragédia, o criminoso é recolhido a um presídio, onde é tratado, educado, socializado, até que a Justiça o considere devidamente apto… para morrer. Acredito que seja, ao lado de Não Matarás, do polonês Krzysztof Kieslowski, o maior libelo do cinema contra a pena de morte.

Já Companheiro Presidente (1971) mostra um agudo diálogo entre Salvador Allende, já eleito presidente do Chile pela União Popular, e o filósofo francês Régis Debray, que havia lutado com Che Guevara na guerrilha boliviana. Na entrevista, realizada em Valparaíso, Debray não se comporta de maneira submissa ou reverente. Muito bem preparado, e radical, faz reparos ao caráter reformista da gestão Allende que, como se sabe, defendia a via pacífica para instauração do socialismo. Debray critica e Allende se defende muito bem, sem fugir a qualquer pergunta e sem responder de maneira sinuosa, habitual nos políticos. É um diálogo olho no olho. Franco e complexo. Impressionante.

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A parte seguinte da obra de Littín é pós-golpe de 11 de setembro de 1973, data-trauma, que divide a história chilena e, talvez, mundial, por enterrar de vez a utopia de transição pacífica de Allende.

Em A Terra Prometida (1973), Littín evoca fatos reais do passado, lutas camponesas do início do século 20, quando uma breve República Socialista se instaurou no Chile e logo foi esmagada. Nelson Villagra, de El Chacal de Nahueltoro, interpreta o líder camponês José Durán. O filme estava sendo rodado no Chile, foi interrompido pelo golpe e terminado em Cuba. A mescla de realismo e alegoria – traço recorrente da obra de Littín – já se mostra com clareza nesta obra.

Atas de Marusia (1976) tem como intérprete d grande ator Gian Maria Volonté, um habitué de filmes políticos. O núcleo temático é um fato trágico da história chilena, quando, em 1907, uma revolta de trabalhadores é esmagada pelo governo para defender os interesses dos ingleses, então proprietários das minas.

O Recurso do Método (1978) é baseado na obra homônima do cubano Alejo Carpentier. O ditador interpretado por Nelson Villagra é uma soma de todos os déspotas latino-americanos, com seu autoritarismo, desprezo populista pelas classes populares, corrupção, cultura epidérmica e fantasias de pertencimento ao Primeiro Mundo. Uma obra barroca, brilhante, extraordinariamente bem interpretada.

Já A Viúva de Montiel (1979) inspira-se em contos do livro Os Funerais de Mamãe Grande, de Gabriel García Márquez. Geraldine Chaplin interpreta a viúva, habitante de um lugarejo que bem poderia ser a Macondo imaginada por Gabo em Cem Anos de Solidão.

Alsino e o Condor (1982) é uma incursão de Littín nos meandros da revolução nicaraguense. O protagonista é o garoto que sonha voar e é levado por um oficial norte-americano a passear de helicóptero. Mas logo descobre que prefere o voo solo ao tutelado. Metáfora da autonomia revolucionária, num filme bonito, tisnado por certo tom chapa-branca no final.

Os filmes mais recentes, como Os Náufragos (1994), Terra de Fogo (2000), A Última Lua (2005) e Dawson Ilha 10 (2009) expressam um Littín ainda fiel ao estilo depurado ao longo dos seus anos mais produtivos e originais. Náufragos, que competiu no Festival de Gramado, é um filme sobre o retorno ao Chile. Terra de Fogo mergulha na Patagônia, e A Última Lua, na Palestina. Dawson é a denúncia de um campo de concentração de prisioneiros políticos no tempo de Pinochet.

Apesar da diversidade, a obra de Littín apresenta constantes identificáveis. Do ponto de vista temático, a preocupação com a História, sobretudo a da América Latina, com suas contradições e terríveis desigualdades sociais. O ponto de vista, explícito, é o das lutas populares. Um outro aspecto: Littín formou-se num tempo em que mudar a ótica para temáticas engajadas não era o bastante. Era preciso, também, descobrir a forma própria de expressão de uma postura tanto estética como ética e política. Daí o fascínio por obras que praticaram, na literatura, o que almejava para o cinema, como as de Gabriel García Márquez e Alejo Carpentier. O resultado, um cinema ancorado no real, com asas soltas para a imaginação. Mescla de realismo e alegoria, tão fantasticamente trágico como o subcontinente que aspira retratar.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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