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Raul Tartarotti*

Esse ano quero paz no meu coração, disse um vizinho quando me desejou feliz 2021, fez menção honrosa a música da banda The fevers “marcas do que se foi”.

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Uma lágrima você tem o direito de se permitir ao saudar essa letra, não precisa ser agora, a noite, sozinho, tente cantar pra você, duvido muito que seus olhos não vazem. Sozinho também, você vai encontrar muitos livros carregados de histórias, que brilham com textos de tempos duros, e seus remédios para a alma. Em 1918, em frente à biblioteca de Nova York, uma pilha de dez metros de livros, formou um presente aos soldados americanos, entrincheirados no front da primeira guerra mundial. Foi um alento enviado aqueles homens, na mira das balas inimigas.

Em uma semana de março, do ano em questão, foram doados um milhão de livros aos soldados. O pesquisador espanhol, à época, Alfonso González Quesada, comentou que a leitura “foi uma atividade vital, que restituía a humanidade arrebatada por aquela carnificina cotidiana”. No mundo todo, naquela guerra, foram vinte milhões de feridos, não desmerecendo o número dos que não resistiram em batalha. Aos dias de hoje em nosso planeta azul, contabilizamos 47 milhões de feridos pelo vírus, mas recuperados. Números impressionantes que teríamos uma chance de reduzir, com a população ficando em casa, quem sabe abraçada a um bom livro, pra se distrair, enriquecer, e assim fugir do tiro invisível, que vem pelo ar da boca vizinha. Esse tempo fácil de passar nessa companhia enriquecedora, “é um tecido invisível em que se pode bordar tudo” (Machado de Assis).

Lembro-me do mestre das letras dos anos 1950, Stefan sweig, escreveu o livro “Brasil país do futuro”, quando veio de muda para Petrópolis no Rio de Janeiro. Foi um dos maiores biógrafos daquele tempo. Publicou a história da vida de Maria Antonieta, do político francês Joseph fouchê, Balzac e outras mais. Mesmo depois de tantas personalidades e povos fascinantes que ele conhecia, se impressionou com nosso país, crendo que essa terra poderia ser o modelo de felicidade, e bem viver da humanidade.

Pena que o país não ouviu esse sábio, e resolveu seguir seus próprios devaneios, sem máscara e seringa suficientes.

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Nosso próximo ano comum, conforme determinou o sábio Sosígenes de Alexandria, no ano 46 A.C, nos deu 365 dias até o próximo réveillon. Esse é um tempo largo pra você praticar os planos que escreveu, e completar a página com os que faltaram. Pra que não haja equívocos ao final, e arrependimentos fáceis de listar por uma desculpa ou outra. Assim ficam visíveis a origem e as respostas ás antigas perguntas. “O homem é só um equívoco de Deus, ou Deus, é um equívoco do homem?” ( Frederich Nietzsche ).

Sabe-se lá quando será nosso encontro com o criador, que eventualmente surge em nossos sonhos noturnos. Hora de viver o presente, assim, ao cabo, teremos novas queixas, as antigas, ninguém acredita mais. Talvez devêssemos fingir que esse ano não existiu?
Que ano?

*Raul Tartarotti é escritor eEng. Biomédico

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