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Balneário Camboriú

Museu de Taquaras, um projeto ganhando espaço para conservar o rico material patrimonial e cultural daquela comunidade

Marlise Schneider Cezar

O projeto não é recente, mas nas últimas semanas, ganhou força, tornando mais próxima a possibilidade de criação do Museu de Taquaras. O projeto viajou a Brasília e pousou nas mesas de políticos, em busca de viabilizar recursos. Alguns dias depois, a gerente de integridade e integração da Embratur, Catiane Seif, veio a Balneário Camboriú, em busca de mais informações para desenvolver o projeto. Não desperdiçar esta oportunidade e abraçar o entusiasmo da comunidade de Taquaras são elementos essenciais para tornar este projeto uma realidade. Entusiasmo não falta.

O que Taquaras tem de melhor: as pessoas”

Lilian Martins e Denize Leite apresentando o projeto em Brasília (Divulgação)

“O museu, em sua essência já existe. Partimos do conceito do museu de território – saindo do aspecto de um lugar com objetos musealizados, mas ampliando o olhar para todo o patrimônio material e imaterial da localidade”

 
Disse a diretora de Artes da Fundação Cultural, Lilian Martins, que esteve em Brasília junto com a presidente da Fundação Cultural, Denize Leite, em busca de recursos para viabilizar a ideia.

Lilian vem acompanhando o assunto desde 2017, quando participou de uma reunião na Associação de Moradores de Taquaras, com a presença do prefeito Fabrício Oliveira. “Ali vimos um potencial do que Taquaras tem de melhor: as pessoas”, disse Lilian e em seguida algumas estratégias começaram a ser colocadas em prática.

“A participação da Fundação Cultural no Conselho da APA com a finalidade de perceber os territórios da cultura, a Festa Raízes de Taquaras, visando difundir o conhecimento do “saber fazer” da farinha de mandioca, a inclusão de um dos ranchos de pescador no roteiro cultural da AMFRI”, colocou.

Segundo ela, a Associação de Taquaras já vem atuando nesta perspectiva, sempre atenta aos editais, nos níveis municipais, estaduais e nacionais. Foram contemplados em LIC, Edital de Eventos, Edital emergencial Aldir Blanc, e inscreveram três propostas no Edital de Trajetória Cultural da FCC.

Outro ponto que vale destacar e já acontece na comunidade é a participação da comunidade escolar no dia a dia da pesca e do engenho.

“As ações de patrimônio cultural imaterial estão sendo registradas. Taquaras possui um acervo riquíssimo: carpintaria naval, dois belos ranchos com exemplares cada vez mais raros das canoas tainheiras, o engenho de mandioca em funcionamento”, destacou Lilian.

Ela segue dizendo que a transformação da antiga estação de tratamento de água, num complexo ambiental e museal, é só mais uma etapa neste processo.

“A preocupação nossa e da comunidade é difundir a beleza do patrimônio cultural e natural da região com responsabilidade e educação”, resumiu.

O projeto

“É um projeto grande e ousado, e estamos nos dando conta do ineditismo. O conceito de museu de território, e os temas (paisagem cultural, a relação do homem com seu meio ambiente), chama a atenção. Estamos em busca de parceiros que legitimem a ideia e corroborem para concretizar. A construção deve ser uma PPP. A parte civil orçada em cerca de 15 milhões. O museu é todo um circuito além do prédio físico que engloba a praia, os ranchos, engenho, as trilhas”, concluiu Lilian.

A idéia do museu sempre esteve presente e a comunidade abraça esta causa

O presidente da Associação de Moradores e Amigos do Bairro Taquaras, Marcelo Abraham Peixoto disse que a associação vem trabalhando na valorização das raízes culturais da comunidade de Taquaras com muita dedicação e a possibilidade de se constituir um museu em Taquaras, como museu de território, pode contribuir muito para a comunidade e para o município.

“Com a desativação da estação de tratamento de esgoto da Emasa em Taquaras, o prefeito Fabricio sugeriu à associação propor um projeto para a utilização daquela área em benefício da comunidade. Passamos a trabalhar em um projeto para um Centro Comunitário, e integrado a ele. Naturalmente surgiu a possibilidade do museu, que é uma ideia há muito tempo aventada na comunidade”, destacou.

Ele segue dizendo que a Fundação Cultural tem apoiado o projeto do museu, assim como todo o trabalho que vem se realizando nestes anos, no sentido de valorizar e preservar a cultura tradicional em Taquaras.

“Com essa intenção tem sido realizada anualmente a Festa Raízes de Taquaras, e se buscado apoio através de premiações e editais voltados a esta área, a exemplo do Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura, Prêmio de Reconhecimento de Trajetória Cultural e Lei de Emergência Cultural Aldir Blanck. Ressaltamos que a prefeitura tem apoiado este trabalho, na pessoa do prefeito e de suas diversas secretarias”,. afirmou Marcelo.

Marcelo destaca a importância do vice-presidente da associação, Jair Euflorzino, nativo e de família de pescador. “Ele não é o presidente porque não quis, mas está sempre junto assim como os outros membros da associação que realmente “pegam junto”, e batalham silenciosamente pela comunidade, o que me dá muito orgulho e agradecimento…”, salientou.

Da esquerda para direita: Jair Euflorzino, Lalo (nativo, também da associação, proprietário da tradicional mercearia de Taquaras, que por si só já é um museu vivo. Sua mercearia é uma viagem no tempo; Claudia Rosa, arquiteta que estava auxiliando a associação (atualmente a arquiteta Tatiele Scorzato tem se dedicado de corpo e alma ao projeto, fazendo um trabalho excepcional), o então secretário do Meio Ambiente e incentivador da ideia, Ike Gevaerd e o presidente Marcelo.

A opinião de Marcelo sobre o museu

“Taquaras conta com diversas características próprias que a classifica como uma comunidade tradicional. A comunidade vibra em torno das atividades da pesca e do engenho de farinha, pois esta cultura está no seu sangue. Taquaras chegou a ter nove engenhos. Seu desenvolvimento e sustento foi baseado por gerações nesta cultura… É a identidade cultural de Taquaras. Um fator de unidade. Isto ficou muito evidente com a realização das Festas Raízes de Taquaras. A comunidade abraçou a festa. Pessoas que não saíam de casa pra nada, vieram para a festa…

O conhecimento dos modos de fazer a farinha de mandioca e a pesca artesanal são um Patrimônio Cultural Imaterial que tem o direito de ser protegido e promovido conforme estabelece o artigo 216 de nossa Constituição. Preservar esta atividade ainda viva, e transmitir e divulgar este saber fazer, tem um grande valor para a identidade cultural desta comunidade.

Neste sentido, a ideia do museu sempre esteve presente… é uma forma de resgatar, valorizar, preservar uma cultura, que ainda é viva, mas que de uma certa forma está ameaçada, seja por falta de viabilidade econômica, seja por restrições ambientais…

Atividades como a pesca e o engenho se mantém graças à dedicação amorosa de membros da comunidade, que se dependessem de um retorno econômico, já teriam parado há muito tempo… Algumas tradições culturais presentes até pouco tempo, já não se encontram mais, como benzedeiras, balaio de tiptim, pão por Deus, terno de Reis…

Um museu de território, também denominado ecomuseu, pensa em comunidade e em território. Este conceito se encaixa bem nesta área, que ainda conta com uma cultura tradicional viva, e está inserida em uma APA. Integra-se perfeitamente dentro da ideia de desenvolvimento sustentável, um dos objetivos que deverá estar abarcado pelos Planos e Programas do Conselho Gestor da APA Costa Brava, relacionado a áreas importantes a serem atendidas por este conselho, como patrimônio cultural, agricultura, turismo e pesca.

Importante lembrar, como nos comentou o coordenador do Sistema Estadual de Museus de Santa Catarina, Renilton de Assis, que um museu não é somente a construção física, mas todo seu contexto, os bens culturais materiais e imateriais, as tradições abarcadas, seus elementos culturais e da natureza, sendo fundamental que a comunidade onde esteja inserido o abrace”.


Ike Gevaerd sugere criar um grupo de amigos do museu

“A iniciativa de se implantar em Taquaras um Complexo Natural – Museu, Centro Comunitário, Espaços de Lazer e Recreação, Educação e Reabilitação Ambiental) é sem dúvida importantíssima para o desenvolvimento ordenado da região da APA da Costa Brava e, sem dúvida se transformará numa referência nacional mostrando que o turismo, a cultura e o meio ambiente devem caminhar juntos, lado a lado.

Os investimentos necessários para a concretização deste complexo devem acontecer através de parcerias público privadas.

A ação da Associação de Moradores, que lidera este processo é exemplar. Como sugestão para ajudar a tirar esta ideia do papel, que já tem um interessante conceito arquitetônico, é criar um grupo de Amigos do Museu de Taquaras, que reuniria pessoas e apoiadores com intuito de alavancar ações concretas. Me coloco a disposição”.


‘Um museu é lugar de conexão entre passado, presente e futuro, e nós precisamos disso’

A opinião de quem vive na prática os ‘saberes e fazeres’

“Em congressos e reuniões sempre falando sobre a comunidade” (Foto Arquivo Pessoal)

Jaqueline Alexandre Weiler, professora da Rede Municipal de Balneário Camboriú, Mestre em Educação e pesquisadora de temas como educação/educação ambiental/saberes tradicionais/comunidades tradicionais.

“O único engenho de farinha ainda em funcionamento na região (na Praia de Taquaras) está sob o comando da minha família há mais de 100 anos. Ou seja, eu cresci vendo meu bisavô (pai da minha avó paterna), meu avô (José Damásio Alexandre), meu pai e meus tios envolvidos com a produção de farinha de mandioca de forma artesanal.

Também é forte na família os saberes e fazeres ligados à pesca artesanal da tainha e outras modalidades de pesca artesanal. Meu pai, e muitos tios dedicaram, e ainda dedicam, uma vida inteira ao trabalho na pesca.

Sou sincera ao dizer que não tenho conhecimento a respeito de como são implantados, e como se organizam os museus, mas tenho certeza que Taquaras tem um potencial enorme para abrigar um museu.

Na minha pesquisa de mestrado, eu fiz um trabalho enorme de mapear o que os pesquisadores chamam de saberes e fazeres tradicionais. Ou seja, ao longo da pesquisa eu fui buscando informações sobre a pesca artesanal, as manifestações artísticas e culturais, a produção de farinha de mandioca, a cultura alimentar, e até os conhecimentos curativos.

Ao fazer esse mapeamento de compreender a organização comunitária, eu e outros pesquisadores da área, chegamos à conclusão, baseados na literatura existente, que Taquaras se “enquadrava” (não gosto dessa palavra, mas é só para fins de compreensão), no conceito de Comunidade Tradicional.

Mas, o que isso significa? Bem, segundo o Documento que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, povos e comunidades tradicionais são: “[…] grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição”.

O fato é o seguinte: estamos diante de uma comunidade diferenciada, com saberes e fazeres ancestrais, com o risco de serem esquecidos. Inclusive, muitos deles já caíram no esquecimento.

Eu vejo o Museu como uma linda possibilidade de ajudar a retirar essa comunidade e sua gente do campo da invisibilidade. Estamos sim diante de uma Comunidade Tradicional, que já “funciona” como um museu. Não um museu comum, como aqueles que têm apenas a função de salvaguardar obras, mas um instrumento de preservação da cultura popular, da identidade cultural, do patrimônio material e imaterial. Um museu é lugar de conexão entre passado, presente e futuro, e nós precisamos disso!

Eu tenho o sonho de ver os saberes e fazeres do lugar onde nasci, e vivo até hoje, tendo a visibilidade que merecem! Já pude falar dessa comunidade em eventos pelo Brasil, e fora dele (Canadá, Portugal, Peru…), e todas as vezes que fiz isso muitas pessoas se interessaram e quiseram saber mais.

“Com meu avô e um pesquisador da UniRIO (Universidade do Rio de Janeiro) que veio conhecer o engenho”.

Um Museu aqui, não será apenas para uma Comunidade. É um presente para a região, para o Município, para o Estado e para o País. É uma forma maravilhosa de valorizar a identidade cultural de um povo”.

“Na praia com meus alunos da Educação Infantil durante a Pesca da Tainha, sempre realizamos algum projeto com as crianças para dar visibilidade aos saberes da comunidade”..

Flávio e o filho Caetano, no lançamento do livro em 2018 (Foto Marcelo Fernandes)

Flávio Fernandes, fotógrafo, registrou em seu livro ‘Rodar do Engenho’ imagens sobre Taquaras, sua comunidade, seus ‘saberes e fazeres’, junto com uma pesquisa de Marina Teté Vieira que conta toda essa historia em detalhes.

“Acho super importante essas iniciativas com relação a cultura, manutenção, fomento, a tudo que envolva a cultura. E ainda acho pouco, porque a cultura diz tudo sobre o povo, hábitos, costumes e no caso de Taquaras, a farinhada e a pesca. Acompanhei a farinhada, fiz amizade com as famílias, até hoje visito a dona Lala, seu Raul e outros da comunidade. Apoio, mas não tenho detalhes, mas vejo que às vezes há uma discrepância entre o que a família quer, o que as pessoas querem e o que o poder público quer.

Acho que todo equipamento voltado para cultura tem que ser valorizado e assim como as pessoas envolvidas no processo, como é o caso do seu Raul e dona Lala, que são os mantenedores do conhecimento da farinhada e se não cuidarem, fatalmente vai acabar….Falei recentemente com eles, eles só querem fazer a farinha, mas se todo esse movimento contribuir para que isso aconteça, acho muito importante”.

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