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Fundos querem consolidar ensino profissional

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Com o crescimento esperado do mercado de educação profissional e técnica, um fenômeno que já movimenta diversos setores da economia chega a esse segmento, destaca o Estadão. Fundos de private equity, que compram participação de empresas, começam a demonstrar apetite pela área.

“O movimento não é só de consolidação desse mercado, mas da formação dele. A ideia é ressignificar a educação técnica como parte fundamental da solução para o problema de desemprego”, comenta Luciana Ribeiro, cofundadora da EB Capital. O fundo também tem como sócios nomes de peso como o empresário Eduardo Sirotsky Melzer, o ex-presidente da Petrobrás Pedro Parente, egressos do Grupo RBS, e Fernando Iunes, ex-Itaú BBA.

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No ano passado, o EB Capital já deu uma pista sobre o seu apetite ao adquirir duas escolas técnicas, a Essa, com uma grade ampla de cursos, desde contabilidade a logística, e a Enferminas, focada em enfermagem, área cuja procura cresceu na pandemia. Há, ainda, mais dez aquisições na mesa sendo analisadas, sendo cinco em negociações exclusivas, com a expectativa de fechar o negócio ainda no primeiro semestre deste ano. “O objetivo é atuar na lacuna estrutural da falta de qualificação de mão de obra para postos de trabalho”, diz Luciana.

O racional por trás da tese de investimento do fundo é que esse mercado tem um potencial muito grande no País. Uma publicação recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que no Brasil cerca de 10% dos concluintes do ensino médio saem de cursos técnicos, ao passo que a média dos países da organização é de 40%. Em países como Áustria e Eslovênia, a taxa é superior a 65%.

Ao todo, nos cursos técnicos regulados, há cerca de dois milhões de alunos no Brasil. O cálculo é de que se o País tivesse a mesma penetração dos demais países da América Latina seriam, ao menos, cinco milhões de estudantes.

A falta de formação técnica se reflete nas dificuldades de contratação de mão de obra. Estudo realizado pela Gama Academy aponta que 66% das 55 empresas mapeadas em todo o Brasil enfrentam dificuldades na contratação de profissionais pela falta de qualificação técnica dos candidatos. “Nesse sentido, é cada vez mais comum observarmos cursos customizados de acordo com as demandas de contratação e de qualificação de diversas grandes empresas, como Cisco e Microsoft. Cresceu também o número de cursos internos oferecidos pelas empresas”, comenta o gerente de Cultura Empreendedora Sebrae, Gustavo de Lima Cezário.

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Solução caseira

Para não enfrentarem gargalo na hora da contratação, empresas que têm necessidade de mão de obra específica têm ampliado os investimentos em curso de formação. O movimento tem sido mais evidente no setor de tecnologia, pois as faculdades não têm conseguindo mudar o currículo de forma rápida para atender ao mercado de trabalho.

O Grupo Mult, de tecnologia da informação, tem feito esse investimento e passou a oferecer cursos de capacitação aos profissionais contratados, conta o presidente da empresa, Ariel de Sousa Carneiro. “Hoje vemos muitas iniciativas das próprias empresas provedoras de tecnologia que começam a disponibilizar conteúdo, muitas vezes gratuitos, já que eles precisam de profissionais.”,

No setor de saúde, epicentro da pandemia, as vagas de trabalho subiram. O Hospital Albert Einstein, um dos maiores hospitais privados do País, a decisão há alguns anos foi de investir na própria faculdade e também no ensino técnico. “A escola foi criada com a intenção de ter uma obra qualificada e diferenciada no mercado e o que nos favoreceu em época de pandemia a contratação mais rápida dos alunos”, diz a coordenadora da Escola Técnica do Einstein, Rosangela Dantas Frateschi. Segundo ela, entre os cursos técnicos, o de enfermagem foi o que a procura mais cresceu, o que refletiu em aumento do número de turmas.

Busca

O aumento da demanda pelos cursos profissionais e técnicos está ocorrendo por jovens em busca do primeiro emprego e ainda por pessoas que querem se realocar, ou por conta do desemprego ou pela vontade de mudança de área de trabalho.

Ivo Fábio de Sousa Cidrão, que acabou de completar 18 anos, optou pelo curso técnico. Ele mora em Cascavel, região metropolitana de Fortaleza, Ceará, e quis fazer o ensino médio técnico no Senai, de olho no mercado de trabalho. Sua escolha foi pelo curso técnico de eletrotécnica, área em que percebeu sua maior aptidão. Antes de bater o martelo, contudo, Ivo analisou o mercado da sua região para identificar as oportunidades de vagas de trabalho e demanda na área. “Esse mercado é bem promissor, as empresas e indústria sempre precisam de técnico em eletrônica”, comenta. O sonho é ainda ingressar na faculdade de engenharia elétrica, que é seu objetivo mais à frente. Antes disso, o estudante está pensando em fazer um curso, agora em comandos elétricos, o que pode lhe garantir melhores colocações no emprego.

No começo desse ano, Ivo fez sua primeira entrevista de emprego, em uma empresa da região, a distribuidora de ovos Avine e teve sucesso: vai trabalhar como auxiliar de manutenção intermitente.

Já Mayranne Melo conseguiu por meio de um curso técnico, também no Senai, mudar de área e passar de representante comercial para atuar como mecânica de Máquinas Florestais na fabricante de celulose Suzano, no Maranhão.

“Eu sempre quis fazer um curso relacionado à mecânica, pois ele oferece uma visão sistêmica e iria me proporcionar uma carreira profissional na indústria”, comenta. Mayranne concluiu o curso no começo da pandemia e antes mesmo de estar com o diploma em mãos, já estava empregada na gigante brasileira de celulose.

Pandemia e desemprego movimentam mercado de ensino profissionalizante

A pandemia, e a pressão do desemprego trazido por ela, tem movimentado o mercado de ensino profissionalizante e técnico no Brasil, além do segmento dos chamados “cursos livres”, aqueles não regulados, destaca o Estadão. Com o País somando 14 milhões de desempregados, o número de matrículas nesse tipo de ensino deu um salto diante da urgência do brasileiro de se recolocar ou de ingressar no mercado de trabalho.

Além de mais alunos, esses cursos de duração mais curta e direcionados a uma determinada área têm atraído investidores, de olho em um mercado pouco desenvolvido e ainda muito pulverizado. Hoje, apenas 10% dos alunos que terminam o ensino médio no Brasil saem de cursos técnicos, porcentual muito abaixo da média dos países desenvolvidos. E a estimativa é que existam no território nacional mais de cinco mil escolas técnicas formais, sendo que 95% com menos de mil alunos – o que dificulta o cálculo da dimensão real desse segmento.

“São cursos rápidos, práticos, com baixo valor de investimento e que em pouco tempo oferecem o diploma ao profissional, que pode começar a realizar uma atividade nova, seja para mudar de ramo, complementar a renda ou ter rendimentos trabalhando por conta na informalidade em um momento como o atual, em que empregos estão escassos”, comenta a diretora educacional da Escolas Argos, Mariana Carbone. Criada há quase quatro anos, a Argos já formou mais de 170 mil alunos, tem três unidades em São Paulo e na grade possui cursos como eletricidade, refrigeração e energia solar. No ano passado, as matrículas subiram 33%.

Tendência

“O crescimento desse segmento é uma tendência enorme. O mercado vai aumentar ainda mais e também a oferta de cursos livres profissionalizantes, seguindo a tendência da educação online”, explica o presidente da consultoria especializada em educação Hoper, William Klein.

Maior complexo privado de educação profissional e de serviços tecnológicos da América Latina, o Senai registrou no ano passado um aumento de 64% nas matrículas em cursos a distância em comparação com 2019. Até novembro foram 1,189 milhão de matrículas, respondendo por 61% do total. “Em geral, são jovens em busca do primeiro emprego e trabalhadores à procura de recolocação”, afirma o gerente de Educação Profissional da instituição, Felipe Morgado.

Na Conquer, empresa que se define como uma escola de negócios para a nova economia, com oito unidades físicas, que tinha 40 mil viu esse número se multiplicar de um ano para o outro. O aumento exponencial foi resultado da digitalização do negócio, com aulas 100% online, e da ampliação da grade com dez novos cursos. Fora isso, para reforçar sua presença no digital, a escola passou a ofertar dois cursos gratuitos: o de inteligência emocional e o de independência financeira, estratégia que fez o número de alunos se expandir rapidamente.

“A gente viveu um ano da digitalização, da transformação digital Vemos a tendência e a necessidade de os profissionais estarem se movimentando e atualizando o seu conhecimento. Há uma grande procura por cursos que atendem a demandas dos novos mercados, como análise de dados e marketing digital”, afirma Hendel Favrin, cofundador da escola.

Edtechs

A procura chegou também às chamadas “Edtechs”, como foram batizadas as startups do setor de educação, como a Descomplica, que recentemente lançou uma nova vertente de negócios voltada exatamente para os cursos livres e já tem observado aumento da demanda em saúde, tecnologia da informação, direito, proteção de dados e empreendedorismo digital. Em 2021, estão programados 12 cursos, número que vai crescer para 30 em 2022.

“Os cursos livres, por serem mais ágeis e atualizados, ajudam a formar profissionais e colaboram muito, também, com a atualização daqueles que já têm uma formação anterior, em qualquer nível”, afirma o diretor Acadêmico da Descomplica, Francisco Borges.

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