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Balneário Camboriú

“O nosso Carnaval é o único à beira mar no Brasil, daqui a 10 anos poderemos até mesmo ser um dos maiores do país”.

Evandro Rocca, o roqueiro mais apaixonado pelo Carnaval de Balneário Camboriú

Por Renata Rutes

O especialista em Marketing, Evandro Rocca, comandou a Liga Carnavalesca de Balneário Camboriú desde 2018, e nesse período o Carnaval de Rua de Balneário passou de 11 para 28 blocos, com destaque para a edição de 2020, a maior da história, com o envolvimento de mais de nove mil foliões. Evandro optou por deixar o cargo – sendo agora vice de seu então vice, Roni Augusto, eleito na noite de quarta-feira (31) com 100% de aprovação dos associados na Liga. Roqueiro e amante do Carnaval, Rocca conversou com o Página 3 nesta semana e contou um pouco de sua história, além de opinar sobre o futuro da festa em Balneário: ele acredita que o evento pode se tornar o maior de SC.

O Carnaval é o segundo maior evento de Balneário, fica atrás só do Réveillon, e pode ser mais valorizado

JP3: Como começou a sua história com o Carnaval em Balneário Camboriú?

ER: Nem todo mundo sabe, mas eu sou roqueiro! É o tipo de música que eu sempre gostei mais. Minha irmã é produtora artística, eu fiz muito comercial de TV com merchan, mas em 2014 eu literalmente invadi a avenida para tentar ajudar a compor as alas da Unidos de Samboriú, pois logo antes de desfilarem percebi que eles estavam com dificuldades e, como folião, me ofereci para ajudar, e então passei a ser solidário com a Samboriú e participei, mais ativamente, novamente em 2015 e 2016. Em 2017 inclusive eles estavam com dificuldades financeiras e, com apoio de um empresário da região, consegui um carro alegórico para eles, assessorei e produzi também o desfile de 2018, em 2019 eles não conseguiram desfilar por conta de alguns problemas e em 2020 fizemos mais um lindo desfile, desta vez com outro carro, todo dourado, que também utilizamos nos desfiles dos blocos.

JP3: O seu envolvimento com a Liga surgiu nesse período?

ER: Sim! Eu fui convidado em 2016 para compor a diretoria da Liga, como diretor social, foi o primeiro cargo que ocupei. Fiquei dois anos nele, dei ideias. Na época tinha ainda muitos políticos envolvidos na Liga e eu via que precisávamos melhorar a comunicação. Em 2018 vim então de candidato à presidente e fui eleito. Em 2019 a Liga assumiu a grande conquista que foi organizar não somente o Carnaval de Rua, mas também as apresentações do palco da praça Almirante Tamandaré, sem custos ao poder público. As pessoas reclamavam que até então misturava a sonoridade, sertanejo, DJ, e começamos então a valorizar somente as apresentações que realmente têm ligação com o Carnaval.

Evandro Rocca entregando a Helton, representante Escola de Samba Coloninha, de Floripa, a chave carnavalesca de Balneário, referente a homenagem a Balneário que a Coloninha fez em 2019

“De 83 Ligas Carnavalescas do Brasil apenas quatro foram premiadas, e nós fomos uma delas”.

JP3: Como aconteceu esse crescimento no Carnaval de Rua?

ER: Realmente. Quando eu entrei como presidente atraíamos cerca de quatro mil foliões e tínhamos 11 blocos. O meu objetivo era atrair mais blocos, mas os novos não conseguiam entrar no edital da prefeitura por falta de indumentária [nunca haviam desfilado, não tinham como ‘comprovar’ que conseguiriam entregar o prometido na inscrição] e aí criamos o Bloco da Liga, onde diversos novos desfilaram pela primeira vez e hoje somos em 28 blocos carnavalescos na cidade. O público também reclamava de precisar pagar abadá para desfilar, e essas pessoas também passaram a desfilar, de graça, pelo Bloco da Liga. A partir disso a prefeitura também passou a nos valorizar mais, viram que pensávamos no público, porque realmente a Liga foi criada pelo povo, sem vínculo governamental, e para o povo.

Evandro e família no desfile da Samboriú, em 2018 – a esposa Patrícia e os filhos

JP3: A Liga sempre recebeu apoio da prefeitura, foi reconhecido o trabalho? 

ER: A Secretaria de Turismo sempre nos apoiou muito, desde os tempos do Ademar Schneider. Acompanhei também o Miro Teixeira, o Nelson Oliveira, o senhor Valdir Walendowsky. Todos trataram a Liga como prioridade, afinal, representamos hoje nove mil foliões, somos valorizados também em outros estados e até países. Já dei entrevista falando do nosso Carnaval para o Uruguai e para a Argentina. Balneário começou a ser lembrada sobre o Carnaval. Em 2018 critiquei, inclusive para o Página 3, a falta de contato da Fundação Cultural, que realmente precisava nos apoiar mais, e em 2019, através da Bia Mattar, isso mudou. Eles começaram a participar conosco da gestão do palco da Tamandaré, e em 2020 fizemos juntos o maior Carnaval de Rua de Balneário, mais profissional, proibimos os blocos de desfilarem com carros de som, através de um bônus no edital do Turismo [blocos que saíssem com trios ganhavam um valor a mais] e assim saímos com 12 trios. Vejo que a Fundação Cultural pode se envolver um pouco mais, acompanhar os blocos, ajudar a fomentar a classe [costureiras, músicos envolvidos], eles podem desenvolver um trabalho mais amplo conosco. O Carnaval é o segundo maior evento de Balneário, fica atrás só do Réveillon, e pode ser mais valorizado.

“Queremos estar no calendário oficial porque assim empresas podem patrocinar, agências de viagens podem vender pacotes anunciando o Carnaval”.

Evandro criou em 2019 o prêmio Destaques do Carnaval, onde o Página 3 foi premiado como Mídia Apoiadora da festa

JP3: Em 2021, a pandemia… vocês programaram um Carnaval seguro, mas em cima da hora foi cancelado por  decisão do Ministério Público.

ER: Sim, foi um pouco frustrante. Era para acontecer, infelizmente tivemos o bloqueio do MP. O prefeito Fabrício Oliveira se posicionou nos apoiando, mas o fez um dia depois [no sábado de Carnaval, a decisão saiu na sexta, quando a programação já deveria ter iniciado] e então não desfilamos. Tínhamos a proposta do Carnaval seguro definida desde maio de 2020, porque já prevíamos que precisaríamos inovar assim. Não dá para planejar Carnaval em dezembro. Ficamos seis meses fazendo os projetos para conseguir a verba através da Lei Aldir Blanc e conseguimos ser premiados em três editais. Isso significou muito, foi a primeira vez que a Liga esteve em um projeto federal, de 83 Ligas Carnavalescas do Brasil apenas quatro foram premiadas, e nós fomos uma delas. No fim das contas, o dinheiro que seria para salvar o Carnaval pagou a multa do trio e da banda, porque o trio que usaríamos já estava na cidade. Havíamos contratado segurança, a roupa da corte carnavalesca estava pronta. Foi difícil. Se tivéssemos desfilado, acredito que teríamos dado uma aula de como fazer um Carnaval com segurança.

“A rede hoteleira é a que mais fatura com o Carnaval e a que menos investe. Nenhum bloco foi patrocinado por hotel em 2020”.

JP3: Isso te influenciou de alguma forma a deixar a presidência da Liga?

ER: Eu sou especialista em Marketing Profissional, sou professor, e em 2020 me dediquei muito à Liga, agora preciso movimentar os meus negócios, por isso apoiei o Roni Augusto, que era meu vice, e agora, a pedidos do pessoal, estou como vice dele. Quero continuar amparando e ajudando a conduzir o futuro maior Carnaval de SC (risos). Acredito sim que temos potencial!

Nova diretoria da Liga, agora Evandro (centro, careca de óculos) é vice de seu então vice (Roni, de rosa, no centro)

“Como o Navegay acabou, todos os ‘olhos’ estão para Balneário. Estamos com a faca e o queijo na mão para conquistar grandes coisas”.

JP3: Maior Carnaval de Santa Catarina? E o que falta para chegar lá?

ER: Sim, eu acredito que é possível. Com a nossa Avenida Atlântica mais ampla, remodelada, temos potencial para crescer mais do que Florianópolis. Mas a prefeitura também precisa resolver a questão da fiação, que hoje impede de contratarmos trios maiores. A nossa Liga tem dinheiro, não dependendo do poder público para ter financeiro. Como o Navegay acabou, na região todos os ‘olhos’ estão para Balneário. Estamos com a faca e o queijo na mão para conquistarmos grandes coisas. Hoje a Liga não tem dívidas, temos um caixa muito bom, daríamos conta de fazer o Carnaval sozinhos. E inclusive um dos objetivos é que a Liga planeje o Carnaval, sem depender do poder público. Queremos que a prefeitura aja com a questão estrutural, como preparar a avenida, banheiros, segurança e divulgação. Outro ponto que precisamos do apoio é na questão de incluir o Carnaval no calendário oficial da cidade, hoje só estamos no de eventos. Queremos estar no calendário oficial porque assim, mesmo que o Carnaval a nível nacional seja cancelado, Balneário pode fazer porque reservou a data em seu calendário. Assim empresas podem patrocinar, agências de viagens podem vender pacotes para Balneário anunciando o Carnaval, etc. Hoje o Turismo só nos passa cerca de R$ 240 mil pelo edital, o que é muito pouco. Já foi até menos. Só para se ter ideia, um trio custa de R$ 15 a R$ 20 mil. O vereador Marcelo Achutti já entrou com o projeto sobre a questão do calendário, mas na época a ex-vereadora Juliethe Nitz negou, disse que tinha vício de iniciativa. Vamos tentar novamente porque queremos para o ano que vem já estar no calendário. Também queremos que nos vejam como utilidade pública, estamos tendo apoio do vereador Cristiano José dos Santos nesse sentido.

Evandro comandando o palco da Tamandaré, ao fundo o DJ Folia, Beto Teixeira, integrante da diretoria da Liga

“Queremos estar no calendário oficial porque assim empresas podem patrocinar, agências de viagens podem vender pacotes anunciando o Carnaval”.

JP3: Muito se fala sobre a falta de apoio do empresariado local quanto ao Carnaval, isso procede?

ER: Sim, as grandes construtoras poderiam nos apoiar mais, por exemplo. O evento poderia ser mais valorizado por elas, porque a visibilidade do Carnaval pode atrair investidores. Outro ponto é a rede hoteleira, que é a que mais fatura com o Carnaval e a que menos investe. Nenhum bloco foi patrocinado por hotel em 2020. Eles poderiam vender abadás dentro dos hotéis, compra o pacote do Carnaval e ganha dois abadás. Seria positivo para todo mundo. Poderiam fazer também o bloco de seu hotel, ou parceria com algum já existente. Valorizaria eles e seus clientes.

JP3: E empresas de fora? Por exemplo, Balneário tem a lei de Naming Rights, que pode ser utilizada para nomear o Carnaval, o Réveillon…

ER: Isso é muito bacana e inclusive poderia atrair artistas nacionais para Balneário, porque eles gostam de se vincular com grandes marcas, Balneário realmente deveria abrir esse leque. Já falamos também sobre liberar instalação de arquibancadas para o Carnaval na Atlântica, a criação de espaços VIPs que também ‘potencializa’ mais. Exemplo, a Brahma patrocina o Carnaval e tem seu espaço VIP, convida artistas. Tudo isso dá ainda mais visibilidade. O nosso Carnaval é o único a beira mar do Brasil, daqui a 10 anos poderemos até mesmo ser um dos maiores do país. 

Com a esposa e professora Patrícia Salve, no desfile do Bloco 100 Limites

JP3: Vocês já estão pensando no Carnaval de 2022? Como estão os planejamentos?

ER: Sim, tem muita chance de acontecer o Carnaval de 2022. Temos nove meses pela frente. Estamos rezando por isso. Foi muito triste não poder fazer o deste ano, esperamos o ano todo pela data e nos prejudicou muito. Há blocos profissionais que são patrocinados e são cobrados pelas empresas, como o Inimigos da Segunda, Xinellis, DJ Folia. Uma das propostas da Liga já para 2022 é comandarmos o Carnaval Infantil, queremos fazer ele na Avenida [até então era fixo na Tamandaré]. A ideia é levar o Bloco da Liga para a tarde e assim levar junto as crianças, com isso o nosso bloco deixa de competir com os noturnos e favorece a criançada, que se sente realmente desfilando no Carnaval.


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