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Balneário Camboriú

“Ser voluntário não é para qualquer um, a entrega é muito grande”

Juliana Ferreira de Deus, presidente do Grupo Solidariedade e Amor

Por Marlise Schneider Cezar

Voluntária por natureza, Juliana Ferreira de Deus, 39 anos, catarinense de Fraiburgo, reside em Balneário Camboriú há 13 anos e vem fazendo ‘a’ diferença, quando o assunto é ajudar quem precisa.

Casada, um filho, curte viajar, mas não abre mão de fazer o que mais gosta: ajudar pessoas que precisam e neste trabalho ela investe mais de 12 horas do seu dia. 

Há seis anos decidiu ampliar e investir forte na sua vocação. Fundou o Grupo Solidariedade e Amor, começou a arrecadar roupas e calçados, em bom estado, para vender em um bazar, que funcionava na calçada de uma padaria, no Bairro das Nações. Com o dinheiro eram promovidas festas para crianças carentes em datas especiais e ainda distribuídos alimentos básicos para famílias necessitadas. Mais de 10 mil crianças receberam atenção desse grupo até hoje. Atualmente a sede está no Hotel do Bosque, no centro, onde são recebidas as doações e vendidas no Bazar. Com o dinheiro das vendas, o foco mudou um pouco, são compradas cestas básicas para ajudar famílias que a pandemia desalojou, desempregou, um número que vem crescendo todos os dias. Nesta entrevista, Juliana, que é a presidente do Solidariedade e Amor, fala sobre essa vocação, esse trabalho que não pára e como ‘ajudar quem precisa’ se tornou uma missão em sua vida.

“As doações reduziram, os pedidos de ajuda triplicaram, não estamos vencendo a demanda e temos que priorizar famílias com crianças e idosos”.

Um Natal no Hospital Joana de Gusmão

JP3 – Como e por quê surgiu o Grupo Solidariedade e Amor?

Juliana – Solidariedade e Amor surgiu da vontade de fazer a diferença na vida das pessoas de alguma maneira.

JP3 – No início, a proposta era arrecadar roupas para vender e com o dinheiro preparar celebrações para crianças carentes, como Dia das Crianças, Páscoa, Natal etc…quantas crianças voces conseguiram beneficiar?

Juliana – Isso, no início nosso foco principal eram as crianças carentes e durante esses seis anos calculo que muito mais de 10 mil crianças passaram por nós.

JP3 – Desde que começou a pandemia, a solidariedade se tornou essencial na vida de muitas pessoas. No início ela era muito forte. Depois o assunto foi fazendo parte do cotidiano,  parece que a pandemia se transformou em números…de infectados, de entubados, de mortos, de vacinados…e as doações reduziram muito…

Juliana – As doações reduziram muito e os pedidos de ajuda triplicaram, não estamos conseguindo vencer a demanda e estamos tendo que priorizar famílias com crianças e idosos.

“Estar do outro lado é muito difícil”.

JP3 – A pandemia se arrastou, a doença ganhou força e refletiu na economia, no desemprego, na fome de muitas famílias. O que mudou? O perfil das famílias que vocês ajudavam antes da pandemia era um. Hoje é outro.

Juliana – Sim, hoje o perfil mudou muito, centenas de famílias que antes corriam atrás do pão de cada dia agora se viram sem ter para onde correr. O desemprego afetou muitos setores, e muitos desses setores sem previsão de retorno das atividades.

A esperada distribuição natalina (Divulgação)

“Temos famílias cadastradas mas não ajudamos sempre as mesmas, damos a vara e ensinamos a pescar”.

JP3 – Nesta pandemia como o grupo trabalha, ajuda a quem procura ou vocês tem registros, cadastros destas famílias e atendem sempre as mesmas?

Juliana – Temos as famílias cadastradas mas não ajudamos sempre as mesmas, damos a vara e ensinamos a pescar. Claro que existem casos que temos que monitorar por mais tempo, mas a proposta é dar a ajuda momentânea e ajudar a pessoa a conseguir o emprego para lutar pelo seu sustento com dignidade.

“Durante esses seis anos calculo que muito mais de 10 mil crianças passaram por nós”

A boa hora da distribuição (Divulgação)

P3 – Durante todo esse tempo, o que mais emocionou você?

Juliana – Muitas mães desesperadas nos procurando e mostrando armários vazios, não ter o que colocar na mesa para os filhos comer é desesperador. E visitamos centenas de famílias nessa situação 

JP3 – O que você viu nesse cenário de necessidades? O que chamou atenção?

Juliana – O que mais nos chamou atenção foram pedidos de ajuda de famílias atípicas… “não eram carentes” mas de uma hora para outra se viram sem um real no bolso. E a vergonha dessas pessoas em nos procurar e pedir ajuda. Estar do outro lado é muito difícil.

JP3 – O que motivou você a trabalhar como voluntária?

Juliana – A vontade de querer mudar o mundo, então comecei por mim mesma. Desde a primeira ação que realizei eu vi que tinha um poder enorme nas mãos e que eu poderia sim fazer a diferença.

JP3 – Balneário Camboriú é considerada uma cidade ‘rica’ por muita gente. Vocês que trabalham cara-a-cara com a pobreza, tem números, registros, percentuais, estatísticas de pessoas que sofrem necessidades de todo o tipo na cidade?

Juliana – O que pude observar nesse tempo é que os arredores não são vistos, muitos não sabem ou fingem não saber mas eles existem e são centenas. Agora trabalhando com moradores de rua também observamos um crescimento de mais ou menos 80% de um ano para cá.

Voluntários alegrando o Natal de tantos (Divulgação)

JP3 – Recentemente o grupo foi premiado pelo Instituto Lixo Zero Brasil. É um reconhecimento pelo trabalho, pela preocupação de além de cuidar das pessoas, também é preciso cuidar do meio ambiente…

Juliana – Ficamos muito felizes pelo reconhecimento, sempre tivemos muita preocupação com o meio ambiente prova disso é dar mais vida útil a roupas que poderiam ir para o lixo, e a festa que fizemos na Casa X para 100 crianças e 100% lixo zero.

“Não ter o que colocar na mesa para os filhos comer é desesperador. E visitamos centenas de famílias nessa situação”. 

JP3 – Entre as pessoas que vocês ajudam tem muitos moradores de rua. Há muita reclamação porque alguns usam drogas e ficam agressivos…a prefeitura faz um trabalho permanente de assistência a estas pessoas, mas muitos não aceitam, dizem que recebem ajuda de moradores que oferecem comida, cobertores e até ração para os cachorros…a prefeitura pede que ninguém dê esmolas. Tem uma campanha de orientação em andamento nos condomínios nesse sentido. Como fica essa situação perante o grupo?

Juliana – Começamos a trabalhar com moradores de rua no início da pandemia quando nos deparamos com famílias inteiras morando na rua por serem despejadas pelo fato de não conseguir pagar aluguel. Doamos marmitas, roupas e cobertores para carroceiros, pessoas que lutam pela sua sobrevivência. Temos o apoio da Inclusão Social e nosso principal objetivo é tirar eles da rua ( já tiramos vários). Mandamos para sua cidade natal, conseguimos emprego para vários que saíram da rua. Mas realmente tem muita gente ali que não aceita ajuda, quanto a esses não temos o que fazer e não ajudamos.

JP3 – Tem algum encaminhamento para o grupo tornar-se uma ONG?

Juliana – Tem sim, nós já temos o estatuto montado, um advogado nos orientando… Mas nunca imaginamos ser tão difícil e burocrático esse processo.

Uma Páscoa no Grupo Latarte (Divulgação)

JP3 – Para fazer esse trabalho, o grupo precisa de apoio. Por ex: o bazar começou na calçada de um restaurante no Bairro das Nações. Hoje a sede é anexa a um hotel. Quem são os principais apoiadores do grupo?

Juliana – Nossos principais apoiadores são a comunidade, eles desde o início abraçam todas as nossas causas.

“O que pude observar é que os arredores não são vistos, muitos não sabem ou fingem não saber, mas eles existem e são centenas”

JP3 – O que esse movimento solidário ensinou para você?

Juliana – Me ensinou a gratidão, ensinou que tenho muito mais que preciso, e que posso compartilhar. Deus trabalha mais em mim do que nas pessoas que eu ajudo.

JP3 – Quais são os planos do grupo para este ano?

Juliana – Crescer, poder atingir cada vez mais pessoas, ser a diferença que queremos ter no mundo.

JP3 – Quantas horas do dia você dedica a esse trabalho?

Juliana – Mais de 12 horas…ser voluntário não é para qualquer um, a entrega é muito grande. Manter um grupo sólido por tanto tempo exige muita entrega.

JP3 – Espaço aberto…

Juliana – Essa pandemia veio para nos mostrar que com certeza juntos somos mais fortes, esse é um momento de transformação e amadurecimento, mas principalmente de reflexão. A vida é um sopro e como você gostaria de ser lembrado?

“Deus trabalha mais em mim
do que nas pessoas que eu ajudo”.


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